sábado, 14 de dezembro de 2013

No escurinho da sala

No escurinho da sala ninguém percebeu que o meu rosto se contraiu, que ficou duro e tenso assim que anunciaram que, entre outras músicas, iriam cantar esta música... Esta música recorda-me o meu pai e foi como um impulso incontrolável que não permite ter outra reação a não ser aquela.
Assim que a música começou e a começaram a cantar, por muito que eu o negasse e me controlasse, a tensão bateu em mim, carregando toda a tristeza duma memória longa, pesada e feliz.
Assim que o cantor proferiu as primeiras palavras do poema da música, os meus olhos encheram-se, não de raiva ou de fúria, mas de tristeza e com isso vieram as lágrimas salgadas que no escurinho da sala me escorreram pela cara abaixo. Ao meu lado o meu filho não se apercebeu de nada, nas cadeiras a seguir o pai cá de casa e os nossos amigos. Ninguém se apercebeu de nada.
Só eu que senti tanto a música que tive que a chorar e com ela recordar-me, mais uma vez, de que o meu pai já não está comigo, já não poderia estar ali a assistir àquele concerto que eu sei de que tanto gostaria...
No escurinho da sala, a minha cara e cabeça doeram-me, tal foi o peso triste que senti.
Nunca tinha sentido isto por uma música... Também, felizmente, nunca tinha perdido ninguém de quem gostasse tanto.
Senti tanto esta música, foi tão bem tocada e cantada (mesmo não o tendo sido pelo Carlos do Carmo) que foi como se todo o meu corpo se arrepiasse e levitasse naquele momento enquanto chorava um choro silencioso e doloroso pelo meu pai, um homem da cidade, que adorava Lisboa...

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