quinta-feira, 14 de maio de 2015

Também aconteceu comigo

E hoje, volvidos tantos anos, não gosto de falar sobre o assunto apesar de guardar na memória todos os momentos em que fui vítima desse termo novo de hoje em dia: bullying, ou seja lá o que isso for... É que quando eu tinha 12/13/14 anos esse termo não existia, não se falava do assunto assim.
Dei por mim a ler este post de A Maçã de Eva e o que lia parecia que tinha sido eu a escrever aquilo tudo, até no que sucedeu na vida aos seus agressores e no facto de nunca ter contado isto também ao meu marido nem a ninguém, apesar de, no meu caso, ter contornos diferentes relativamente ao que me fizeram...
Só sei que sempre fui introvertida, boa aluna, recatada, de poucos amigos, filha única, escanzelada e muito alta...
Tinha uma amiga, vizinha na mesma rua, com a qual deixei de falar e já nem sei bem porquê, creio que os nossos pais também se desentenderam mas nada de grave... Essa amiga, gorda e quatro anos mais velha, tinha um irmão dois anos mais velho do que eu. Eles, por sua vez, tinham, diversos amigos e amigas, todos com irmãos e irmãs, e todos mais velhos do que eu dois/quatro anos. Eram todos burros na Escola, péssimos alunos. Essa minha "amiga" gorda então já teria reprovado umas duas vezes e tinha sempre negativas nos testes.
Bom, só sei que a partir daquele desentendimento que para mim tinha acabado ali, ponto final, desembocou em agressões verbais permanentes que duraram meses, apesar dos meus pais terem intervido e questionado os e as anormais em questão.
O que eu penso hoje em dia é como é que não me defendi, como, mas porquê?!!! Bem sei que sempre fui uma neird, uma tótó recatada mas como é que fiquei calada perante tantas coisas que me gritaram e chamaram!!!
Eu não podia sair à rua, fosse ao café, ou a caminho da Escola, pois havia sempre um eco de alguém a chamar-me nomes e não eram nomes simpáticos, eram alcunhas, eram gozações com a minha estrutura física: muito alta para a idade, escanzelada, com uma orelha que sobressaía no cabelo por ser mais "saída" do que outra. Foram pegar nisso mesmo, na minha orelha...
A ir e a vir da Escola gritavam-me nomes, gozavam comigo, e eram muitos e muitas, todos amigos e amigas, irmãos e irmãs, atiravam-me espigas nas costas para ficarem coladas à minha roupa, e eu era sozinha, não tinha ninguém que me defendesse e eu própria ficava calada e nunca respondi, como é que isto foi possível, mas como???!!!
Isto durou meses, e eu que já era introvertida e insegura, fiquei ainda pior. Vá lá que não me isolei nem perdi o rumo, prossegui, mas não sei se parte das minhas inseguranças agora em adulta não se devem, em parte, a isto...
Certo dia isto tudo parou. Eu nunca mais falei com aquela gente e guardo mágoa até hoje. Nem quando essa tal minha "amiga gorda", fonte do início de todos os ataques verbais que me fizeram, foi com a sua mãe ao funeral do meu pai e me veio dar um beijinho de pêsames, eu consegui "relevar" e ser simpática. Dei o beijinho, agradeci mas fui extremamente seca e distante...
Quanto a todos e todas que gozaram comigo, realmente a vida é lixada, uns tornaram-se toxicodependentes, creio que um faleceu, os outros e outras continuaram todos burros na Escola, engordaram, têm vidas e empregos de merda e creio que, pelo que me contaram, nalguns casos têm filhos com problemas. E eu não quero tocar neste ponto porque às vezes a minha vida também é de merda mas, felizmente, tirei o meu curso, tenho um bom emprego e um filho e um marido espetaculares e uns pais maravilhosos.
Em suma, todos, ou quase todos, tiveram, ou têm, uma vida de merda. E quando vou à casa dos meus pais e os vejo na rua, lembro-me sempre de tudo, não o esqueci e acho que será impossível esquecê-lo.
Bullying aconteceu comigo. Não havia câmaras nem telemóveis. Levei com imensas coisas em cima e guardo-as na memória como se tivessem ocorrido ontem. Ninguém me ensinou ou disse para eu me defender e agora eu "ensino" isso ao meu filho porque não quero que seja um saco de pancada como eu fui. Não tive Psicólogos nem Psiquiatras de volta de mim e por isso quando surgem as teorias das inadaptações à sociedade e famílias problemáticas, eu que sou tão compreensiva estou-me a lixar para isso tudo!!!
Quem agride tem que ser punido e não há cá compreensõezinhas!!!

Nota mental: nunca tinha falado disto a ninguém e nunca o tinha escrito ou partilhado fosse onde fosse e foi... bom...

3 comentários:

Nainho disse...

Abraço forte! eu fui vitima mas em menos escala :) era gordinho ...

Mas é tudo tão complicado e a maldade infantil é algo generalizado
!

AvoGi disse...

UI, que história! Mas é sempre assim como eu costumo dizer: os cumpridores os que sabem viver em sociedade e respeitam as regras são os otários.
Ainda bem que tiveste o apoio da família, certamente foi esse apoio e é esse suporte que falta aos prevaricadores.
Kis:=>}

Algures no Oeste disse...

NAINHO e AvoGI: Obrigada pelas vossas palavras...
É assim, há quase sempre algo por onde pegar e também tenho esse sentimento, de que os cumpridores são os otários da sociedade...
:O
Um beijinho a ambos.