quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O Natal e eu (post atrasado ou extemporâneo ou... qualquer coisa do género)

Nunca liguei muito ao Natal.
Desde criança que o associo a uma seca pegada ou não fossem as memórias dos meus Natais algo tão insípido como passar o serão da noite da consoada tão somente com os meus pais num sossego desmesurado.
Por vezes, o meu pai até adormecia antes da meia-noite e ali ficava eu com a minha mãe a ver televisão, a petiscar os inúmeros doces natalícios e a desejar que o tempo passasse para poder abrir as prendas que restavam debaixo do pinheiro de Natal.
Não sei se por minha causa mas a minha mãe nunca adormeceu na noite de Natal, ao contrário do meu pai que se estava positivamente a borrifar para a época e que adormecia em pé, ainda no corredor, a caminho do quarto. A propósito, acho que estou a ficar parecida com o meu pai nisso mas... adiante...
Por volta da meia-noite eu abria as prendas e a minha mãe ia fritar camarão à sua moda e era bem bom pois ainda hoje me delicio com este camarão frio, o pão, o molho, o pão no molho e por aí fora...
Bom, e vai daí que cresci e associei sempre a noite de Natal a um serão algo triste e solitário já que a nossa família éramos apenas nós, sem mais ninguém que viesse "da terra" ou sem irmos nós "à terra" que não tínhamos, pelo menos eu e o meu pai, já que a minha mãe também não tinha mais ninguém na sua... "terra"...
Depois cresci, construí a minha família, tive um filho, e durante uns anos os Natais até passaram a ser animados com mais gente, dos dois lados da família, o meu lado e a família do outro lado.
Mas até nisso as coisas se modificaram pois se durante alguns anos (poucos...) as noites de Natal até tinham "muita gente"), sem ninguém esperar, as pessoas que com quem passávamos a noite de Natal começaram a desaparecer.
A vida começou a levar aqueles de quem mais gostávamos, ou melhor, a morte levou-os...
E assim de repente, as noites de Natal voltaram a ser invadidas por alguma tristeza por não termos junto de nós aqueles que nos eram tão queridos.
De repente tinha o meu filho na noite de Natal mas já não tinha o meu pai.
E assim se passou o tempo, os anos e o Natal.
Até que chegou o meu primeiro Natal e a minha primeira passagem de ano enquanto mulher, pessoa e mãe divorciada.
E tudo mudou novamente.
A realidade que via nos outros passou a ser a minha.
Na noite de Natal tive o meu filho e a minha mãe comigo mas no dia de Natal não tive o meu filho durante a parte do dia que foi passada com o pai.
Na noite da passagem de Ano, pela primeira vez na minha vida, não tive o meu filho comigo. Desde que nasceu que nunca tinha passado uma passagem de ano sem o meu filho que esteve, desta vez, com o pai.
Assim é a vida, uma roda viva, de situações, momentos e pessoas.
Uma coisa é certa, o sentimento que me acompanha desde criança mantém-se: a noite de Natal é uma seca tremenda.

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