domingo, 9 de setembro de 2012

Há muito que não pedalava sozinha...

Há algum tempo que não pedalava sozinha, como aconteceu hoje. Passei duma pedalada solitária para uma pedalada com companhia no dia em que, ao calhas, estava eu com problemas na minha bicicleta, encontrei uma pessoa mais ou menos como eu, que também pedalava sempre sozinha, que também é mãe, e que é super veloz na bicicleta, e que naquele dia me ajudou...
Isto é algo muito bom porque como temos idades, vidas e papéis semelhantes, o facto de andarmos de bicicleta não faz de cada uma de nós seres únicos no mundo... Muitas vezes me senti(a) quase uma extraterrestre por ter esta idade, ser mãe de família, trabalhar e ainda desatar a pedalar frenéticamente por esses campos fora...
Mas a partir daquele dia, há uns meses atrás, passámos a treinar juntas e a fazer as pedaladas em conjunto. Esta pessoa tem-se tornado para mim numa espécie de treinadora, alguém que eu admiro e respeito, que me tem ajudado muito, que tem paciência para alguém que não é tão ágil nem tão veloz, e com ela tenho aprendido muito...Ela não precisa de falar muito para eu perceber o que me está a transmitir e tem sido uma grande lição, não só ciclística, mas também de vida...
Ora hoje não foi possível pedalarmos juntas e confesso que senti a sua falta... Ainda assim lá fui eu e hoje sentia-me bem e por isso, ainda que estivesse imenso calor, pedalei 41 quilómetros, que incluiram diversas subidas e descidas íngremes.
Como só levava água comigo, e o calor e a fome apertavam, servi-me do que tinha à mão, do que tinha ao meu redor, do que me permitiria 'sobreviver' hidratando o meu corpo e dando-lhe açúcar e combustível: primeiro uma mão cheia de amoras bem pretas e suculentas, mais à frente uma pêra rocha, rija como gosto, caída no chão, debaixo das imensas pereiras já praticamente vazias de fruta, e quase no final, já próxima de casa, comi uma maçã, muito ácida mas cheia de sumo, que me deu energia para uma subida final que se aproximava...
Este contacto, quase em silêncio, com a natureza e a aproximação da terra, hoje fez-me pensar, ou melhor, recordou-me que eu era uma menina da cidade que nunca teve qualquer contacto com o campo ou com a terra. Fui criada junto a Lisboa, num meio urbano, sem avós ou qualquer ligação aos meios rurais.
Nunca brinquei na terra, nunca soube o que era ver as frutas ou os legumes a crescerem e depois apanhá-los, nunca vi ninguém a trabalhar na terra, nunca ajudei, nunca brinquei e fiquei suja com pó, terra ou lama por andar a brincar no meio das árvores...
E agora, eis-me quase aos 40 anos, a pedalar no meio do silêncio e do mato, a abastecer-me do que a terra coloca à nossa disposição, a não ter qualquer problema ou repúdio em comer frutas que estão caídas no chão, limpá-las nas blusas e comê-las como se fossem o último manjar ao cimo da terra... E que bem que me sabem quando estou cheia de calor, transpirada e quase cansada das pedaladas intensas.
A bicicleta aproximou-me da terra.
A bicicleta aproximou-me de tanta gente.
A bicicleta tem-me dado a conhecer mundo(s) que não conhecia.
A bicicleta faz-me bem ao corpo e à alma...
E só 'conheci' melhor a bicicleta depois de me mudar para o Oeste. É no Oeste que a bicicleta está "na rua" e em que posso chegar a casa e sair montada nela para onde quizer...
Treinar com alguém muito melhor do que eu fez-me aprender, sem que ninguém me tivesse dito o que quer que fosse, que é melhor pensar duas vezes antes de ir a correr para certas maratonas de BTT, que é melhor treinar bem e intensivamente, e depois ir, mesmo que seja só pela participação que tanto prazer e gozo me dá...
Pedalando e aprendendo, com a bicicleta e com a vida...

1 comentário:

Corre como uma menina disse...

Eu corro sempre sozinha e, embora até prefire, acho que era bom ter uma companheira que puxasse por mim, mas não muito mais rápida para que eu não sentisse que estava a atrasá-la!

Boas pedaladas!