quarta-feira, 16 de abril de 2014

De quando em vez vem-me à cabeça...

De quando em vez olho para o calendário e vem-me à cabeça que no ano passado, por estes dias, estava eu internada no Hospital, a deambular dum lado para o outro, pós operação, a ler todos e mais alguns livros freneticamente e que era a única 'doente' que conseguia ir sozinha à casa-de-banho. Ainda que a minha situação fosse angustiante e dolorosa, dentro do mau estar comum, eu era, ainda assim, a paciente com menos problemas, de mobilidade essencialmente...
Por isso naquele Hospital aprendi que há quem gaste a sua hora de almoço como voluntário a dar de comer a quem não o consegue fazer sozinho ou a ajudar quem não tem família por perto...
Eu conseguia comer sozinha se fosse comida que não precisasse de ser partida porque senão tinham que me partir a comida em pedaços e assim eu comia com o braço esquerdo...
Foi uma experiência marcante e inesquecível em vários aspetos, e como experiência de vida e de conhecimento doutras realidades também... Naquele Hospital estavam internados maioritariamente velhotes e era notória a sua solidão...
Do alto da minha 'juventude' aprendi que realmente um dia tudo se vai ou pode ir e que há quem dê sem querer ou esperar nada em troca, desdes os voluntários às auxiliares, enfermeiros e médicos que tinham tão poucos meios e recursos disponíveis...
Fui muito bem tratada e cuidada e sempre que passo à porta do Hospital olho para as janelas de onde eu via a rua, por onde parava, me encostava e observava o frenesim diário. Sei de cor a que espaço corresponde cada uma das janelas, inclusive dos balneários e das casas de banho porque foi também algo que me marcou: o facto de terem que me dar banho. No primeiro dia chorei num misto de tristeza e de sentimento de impotência, ali estava eu a depender dos outros para tomar banho... Mas depois aprendi que, dada as circunstâncias, era algo normal e do qual eu não tinha que me sentir triste ou envergonhada ou a sentir-me inferior... E suponho que também aprendi com isto.
Só eu sei aquilo por que passei e senti naqueles dias...
Só eu sei tudo aquilo que pensei, reflecti, aprendi e descobri, sobre os outros e sobre mim mesma...
Só eu sei o que sentia quando tinha a minha família comigo a visitar-me e, lá está, como era uma doente saudável, podia ir até ao átrio do Hospital, e mais uma vez ficava atrás duma janela a dizer-lhes adeus enquanto se afastavam no carro. Certamente que o que guardo com mais firmeza é a cara do meu filho a acenar-me por trás do vidro e do carro e na minha visão atrás duma janela hospitalar...
Mas é isso. Já passou. Há um ano estava a dois dias de sair do internamento...

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